quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
A Escola e Suas Possibilidades
A concepção mecânica é a que ainda prevalece nos atos de ensino-aprendizagem e os artefatos midiáticos, quando são usados, funcionam como acessórios ou complementares, externos ao próprio processo de aprendizagem. Neste panorama, a inclusão da mídia-educação só seria eficaz para os movimentos de mudanças se considerasse os diferentes atores que circulam e constroem a instituição.
É necessário reconhecer a comunicação que se dá (ou não) entre alunos, professores, coordenadores, diretores, porteiros, secretárias e merendeiras (entre outros) e como cada um entende a educação escolar formal e a sua participação neste processo. Trazer a tona, olhar com atenção este caldeirão cultural, o que cada um valoriza e despreza, valores estes construídos em suas histórias pessoais, familiares, territoriais, e também delineados pela sua experiência com a mídia – o quê e como vêem TV, ouvem rádio, lêem jornais, revistas livros, usam o computador... Reveladas as nuances das concepções sobre o que é educar e qual o papel da escola, pode-se construir uma base compartilhada, mesmo que provisória e mutante. E resgatar, fazer circular, os papéis de quem ensina e quem aprende, trazendo para o centro da cena também quem tradicionalmente está marginalizado neste processo e que não se vê como “ensinante” e “aprendente” (aprendiz).
Projetos que incluem mídia-educação precisam considerar esta base compartilhada, construída com a participação de todos, e selecionar os recursos que podem contribuir para que os objetivos educacionais sejam alcançados. Além de atuarem como receptores de mensagens de artefatos midiáticos, é preciso oferecer aos atores oportunidade de exercitarem a função de produtores de artefatos, avançando na compreensão de como se relacionam com eles e iniciem a apreensão de sua linguagem específica.
Por isso, é importante definir, inicialmente, um meio para trabalhar, garantindo a troca de experiências a partir de uma vivência comum. Atividades com produção de vídeos, programas de rádio, elaboração de um jornal ou de um site institucional são bons exemplos de possibilidades de uso da mídia na redefinição compartilhada dos objetivos e procedimentos escolares.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
A tecnologia e as novas gerações
E quando surgiu essa relação? De acordo com Stuart Hall, a revolução cultural ocorrida a partir do século XX modificou os meios de produção, circulação e trocas de informação a partir da intensificação das tecnologias e da revolução da informação. As gerações que surgiram a partir desta época nasciam familiarizadas com todas as mudanças que ocorriam enquanto as anteriores tentavam se adaptar. Nada muito diferente do que vemos hoje. Naquela época, e fator que se intensificou com o passar das décadas, a grande diferença encontrada a partir de civilizações anteriores era a abrangência dessas modificações e a rapidez com que chegavam até a sociedade. Do primeiro jornal escrito até o surgimento do rádio três séculos se passaram, enquanto em apenas meio século surgia a televisão e em apenas mais um quarto de século os primórdios do que hoje conhecemos como internet. Com a velocidade dos meios de comunicação surgiam novas gerações ainda mais rapidamente adaptadas e “antenadas” com todas as mudanças que ocorriam. Surgiam também indivíduos midiáticos que não conheciam uma vida completamente livre de interações que surgiam o tempo todo de todas as partes.
“A nova mídia eletrônica não apenas possibilita a expansão das relações sociais pelo tempo e espaço como também aprofunda a interconexão global, anulando a distância entre as pessoas e os lugares, lançando-as em um contato intenso e imediato entre si”. (Du Gay 1994).
O que acontece hoje é apenas um reflexo do processo que começou há mais de um século com o surgimento e crescimento da importância social da mídia. De acordo do hall é ela quem “sustenta os circuitos globais de trocas econômicas dos quais depende todo movimento mundial de informação, conhecimento, capital, investimento, produção de bens, comércio de matéria prima e marketing de produto e idéias.” Assim como a TV encantou e atraiu – e continua atraindo gerações - que praticamente entravam em seus programas e novelas desejando se tornar parte daquela fantasia, hoje tecnologias como a internet, em especial, funcionam como um imã e um espaço social onde crianças e jovens conseguem ultrapassar a fase do desejo, efetivamente se projetando e vivendo virtualmente de acordo com suas vontades.
Não existe na grande rede o limite da tela, as historias não se limitam a roteiros pré-escritos, eles podem ser a todo tempo modificados, reescritos, ter mil mãos e vozes. Com isso, a velocidade de integração e mudança se multiplica, as gerações anteriores sentem mais rapidamente a obsolescência de seus meios e, de forma não tão dinâmica, tentam recuperar-se e entender-se em um espaço e tempo que parecem não mais lhes pertencer.
Tatiane Ribeiro
Como se pode construir uma pedagogia multicultural e criativa em que não se reproduzam padrões, estereotipias, exclusões?
As escolas, que deveriam se locais de fortalecimento e de valorização de todas as diversidades, são consideradas pelos nossos alunos como um lugar “chato” onde se deve “aprender e/a reproduzir” conceitos ultrapassados.
Assim, pensar em multiculturalismo, assunto complexo, controverso, principalmente quando o relacionamos à educação e mais especificamente à escola – coloca-nos diante de desafios em relação a percepção da diversidade humana;
• a desconstrução de verdades;
• a integração/interação de saberes;
• a desierarquização das diferenças;
• visões diferenciadas do mundo...
Vivemos em uma sociedade heterogênea, composta por diferentes grupos com diferentes interesses, diferentes classes e diferentes identidades culturais ... E todas essas diferenças em permanente contato, convivência e conflito.
Stuart Hall (2003) identifica pelo menos seis concepções diferentes de multiculturalismo na atualidade:
1. Multiculturalismo conservador: os dominantes buscam assimilar as minorias diferentes às tradições e costumes da maioria;
2. Multiculturalismo liberal: os diferentes devem ser integrados como iguais na sociedade dominante. A cidadania deve ser universal e igualitária, mas no domínio privado os diferentes podem adotar suas práticas culturais específicas;
3. Multiculturalismo pluralista: os diferentes grupos devem viver separadamente, dentro de uma ordem política federativa;
4. Multiculturalismo comercial: a diferença entre os indivíduos e grupos deve ser resolvida nas relações de mercado e no consumo privado, sem que sejam questionadas as desigualdade de poder e riqueza;
5. Multiculturalismo corporativo (público ou privado): a diferença deve ser administrada, de modo a que os interesses culturais e econômicos das minorias subalternas não incomodem os interesses dos dominantes;
6. Multiculturalismo crítico: questiona a origem das diferenças, criticando a exclusão social, a exclusão política, as formas de privilégio e de hierarquia existentes nas sociedades contemporâneas. Apóia os movimentos de resistência e de rebelião dos dominados.
Com o(s) multiculturalismo(s) precisamos reconhecer que existem indivíduos e grupos que são diferentes entre si, mas que possuem direitos universais, comuns, e que a convivência harmônica depende da aceitação da idéia de compormos uma sociedade heterogênea na qual:
a) não poderá ocorrer a exclusão de nenhum elemento ;
b) os conflitos de interesse e de valores deverão ser negociados pacificamente;
c) a diferença deverá ser respeitada.
Resumindo: deve-se tolerar e conviver com aquele que não é como eu sou e não vive como eu vivo, e o seu modo de ser não pode significar que o outro deva ter menos oportunidades, menos atenção e recursos.
Voltemos ao título: Como se pode construir uma pedagogia multicultural e criativa em que não se reproduzam padrões, estereotipias, exclusões com as seguintes informações:
Dados educacionais
• No Brasil, cerca de 21 milhões de pessoas, entre 25 e 64 anos de idade nunca foram à escola (UNESCO/OCDE, 2000)
• Em 1998, dos alunos matriculados na 1ª série, 30% foram reprovados ou abandonaram a escola (INEP/MEC, 1998)
• Existem 15 milhões de analfabetos de 15 anos ou mais, o que representa 13,3%da população nesta faixa etária.
• Das mulheres acima de 40 anos, 32% não são alfabetizadas. Na zona rural, este número sobe para 60% (IBGE/PNAD, 1999)
• 20% - Índice de brasileiros acima dos 50 anos que não sabem ler nem escrever
• Desigualdade regional:
Proporção de analfabetos na população com 50 anos ou mais, por região:
Nordeste 41,3%
Norte 28,7%
Centro-Oeste 21,8%
Sudeste 13,2%
Sul 12,8%
Brasil 21,5%
A escola tem solução?
A educação contemporânea ainda hoje está ligada à idéia cartesiana do indivíduo e de seu aparelho cognitivo, sem considerar o que está à volta dele, sua história, sua cultura. Fala-se no cidadão do século XXI, de um mundo globalizado, mas a escola ainda não está preparada para educar esse cidadão. Veio a globalização, entramos na era da informação/conhecimento e a prática da educação permaneceu praticamente a mesma.
Diversas teorias mostram o surgimento de novos estilos de aprendizagem na nova geração de aprendizes, como, por exemplo, o modelo Honey e Mumford de estilos de aprendizagem, ou ainda, um conceito muito semelhante, a teoria das inteligências múltiplas, do norte-americano, Howard Gardner. No entanto, o sistema educacional ainda não encontrou um caminho eficaz para educar essa nova geração. A pedagogia moderna repete padrões arcaicos com foco no conteúdo e não no aluno e nas suas necessidades, interesses e seu estilo de aprendizagem.
Além disso, a Escola enfrenta outro grande desafio que é a criação de um sistema educacional que forneça os recursos necessários para integrar os grupos diferenciados que se encontram nesse ambiente. Atualmente, o princípio da educação ainda é a universalidade, desconsiderando o multiculturalismo presente na escola e na sociedade como um todo. Em outras palavras, o sistema educacional precisa buscar um modelo que “reconheça o particular enquanto alcance o universal” (Clarke, 196. p.13). Nesse sentido, o melhor caminho seria a educação intercultural. Enquanto a educação multicultural promove somente a “interpretação” das diferenças culturais, a educação intercultural é mais transformadora, promovendo diálogo e interação entre grupos diferenciados.
Enquanto a escola não reconhecer a existência de uma nova geração de aprendizes, seus diferentes estilos de aprendizagem e o multiculturalismo nela presente, ela está fadada ao fracasso. É preciso “replanejar” o currículo, o programa educacional e a sala de aula, tendo em mente os aspectos acima mencionados. É crucial respeitar as diferenças de cada aluno e não assumir que todos devem ou querem chegar ao mesmo lugar. Obviamente, não podemos esquecer a figura do professor na instituição Escola. Ele tem um papel fundamental no processo educacional, e na promoção de mudanças ou repetição de padrões.
Por que a escola não é, então, reinventada?
Talvez porque seu papel ainda seja, inevitavelmente, reproduzir o sistema ou sociedade na qual está inserida- a sociedade capitalista globalizada da era da informação. Quando falamos em era da informação e no sentido mais amplo de educação, pensamos consequentemente na indústria cultural e nas mídias. As mídias, como espaço de formação de opinião pública, podem ser fortes aliadas da escola e tornar o ensino/aprendizado mais rico, e que, por sua vez, também, estão a serviço das instituições hegemônicas, do sistema. Portanto, além de todos os pontos levantados anteriormente, é também imperativo o estudo das mídias pela mídia-educação como forma de auxiliar a escola na formação dos cidadãos e de seu senso crítico.
Diante de todas essas questões, podemos dizer que a escola tem solução?
Há diferentes visões com relação a isso. Ouça o depoimento de uma pedagoga.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Educação, trabalho e as mudanças ao longo do tempo
Basta olhar para a história. Na época do fordismo e do taylorismo, habilidades psicofísicas, memorização e repetição dos procedimentos eram suficientes para delinear quem era apto para realizar as tarefas. Não eram exigidos, portanto, muitos anos de escolaridade e outros conhecimentos específicos para que o homem pudesse se destacar. É claro que havia exceções, os intelectuais da época precisavam deste tipo de produção e de estímulo ao conhecimento.
Mas a incorporação da ciência e da tecnologia aos mais diversos processos produtivos exigiu uma mudança de paradigma, que se estendeu aos outros setores da vida social e produtiva, apesar de ter impactos diferentes. Então houve uma maior exigência do trabalhador por parte da relação com o conhecimento. E isso deve, na maioria das vezes, nascer dentro dos muros da escola. Por outro lado, os empregos informais ainda seguem um caminho diferente. O trabalho bem-sucedido nessas condições depende de conhecimentos específicos e formas tradicionais de gestão, por exemplo.
Dessa forma, há uma necessidade de apropriar-se de conhecimentos científicos, tecnológicos e sócio-históricos, até por uma questão de sobrevivência dentro do âmbito profissional. O método também se tornou importante devido às novas demandas, digamos que devido à agilidade das atualizações dos conhecimentos. A Doutora em Educação Acácia Zeneida Kuenzer aponta que o cenário abre espaço para uma nova metodologia, e não a da “escola burguesa”. Segundo ela, o que está em jogo é a superação do próprio capitalismo.
Para tal, a mediação da linguagem tem que ser reconhecida como o foco entre a relação entre o homem e o trabalho. Antigamente, como nas fases já citadas taylorista e fordista, a relação acontecia especificamente entre usuário e produto. Com a modificação da finalidade, com foco em desenvolvimento tecnológico e não mais em maximização da produção, a relação acontece entre usuário e processo, e não mais produto, dependendo do conhecimento deste produtor.
A tecnologia atinge o mercado de trabalho globalmente. A Internet acabou se tornando mais um abismo criado entre continentes. Na Ásia se encontram 41% dos internautas do mundo, 25% deles estão na Europa, 16% na América do Norte, 11% na América Latina e Caribe, 3% na África, 3% no Oriente Médio e 1% na Austrália.
No Brasil, a presente - e crescente - precariedade das escolas públicas promove os chamados desconectados, tanto em questões tecnológicas, quanto em conhecimento. Dessa forma, torna-se difícil transmitir o conhecimento adequado para os alunos e também transmissão de ensino e troca entre professores. Isso fora a perda da autoridade.
A autoridade do professor não deve ser usada para a imposição de ideias, e sim para estimular o aluno. Situações problemáticas são bem-vindas, retirando o aprendiz da inércia, reelaborando conhecimentos vindos de diferentes fontes. Novas ações por parte da Pedagogia romperiam com a tradição escolar, mas abririam espaço para que o aluno também seja um agente sob o olhar do professor, levando o aprendizado de forma mais inteligente para fora dos muros da escola. O diálogo entre o professor e o aluno deve ser ampliado com o uso das redes, visando um intercâmbio educacional e cultural.
Análise baseada no artigo de Acácia Zeneida Kuenzer, “Educação, linguagens e tecnologias: as mudanças no mundo do trabalho e as relações entre conhecimento e método”.
A Literatura como Eixo da Realidade Cultural Brasileira
Segundo Portella (1986), o trabalho do escritor, é também um trabalho de instrução. Não se pode vender ao povo uma literatura de baixo nível, o que seria uma atitude cômoda e deformadora. Para ele, a literatura deve ser um instrumento formador, cabendo ao intelectual discutir, criticar, compreender a sua realidade.
A questão da identidade nacional, obviamente se inclui neste processo, a literatura pode e deve fazer parte desse processo de construção de uma identidade cultural, sendo um dos eixos fundamentais de nossa realidade cultural. O escritor tem um importante papel a desempenhar na formação, no nosso caso, de um modo de visão brasileiro, de um modo próprio de nos ver. O intelectual deve interferir ativamente no processo de emancipação nacional, utilizando da literatura para apreender e expressar nossa realidade nacional.
Hall (1999) explica que nação não é apenas uma entidade política, mas algo que produz sentidos – um sistema de representação cultural. As pessoas participam da idéia de nação tal como representada em sua cultura nacional. Acrescenta, ainda, que as culturas nacionais, aos produzir sentidos sobre a nação, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades e que as nações se diferenciam entre si pelas formas como elas são imaginadas. O autor, posteriormente, acrescenta ainda que sem um sentimento de identificação nacional o sujeito experimentaria um profundo sentimento de perda subjetiva, ou seja, ao mesmo tempo em que ele deve existir e agir como um ser autônomo, ele precisa se perceber como parte de algo mais amplo, de um todo do qual faz parte.
Alguns importantes movimentos literários pensaram de maneira bastante intensa esta questão da identidade nacional. O primeiro deles foi o Romantismo, cuja primeira fase foi a principal responsável por pensar a idéia de um Brasil nação.
O Romantismo é considerado pelos principais pesquisadores da literatura brasileira como o primeiro movimento literário propriamente nacional. Antes do Romantismo, ocorriam na verdade, manifestações literárias no Brasil, com referências externas e caráter difuso. Estas manifestações, na verdade, eram produzidas por homens educados na metrópole, com a mentalidade da metrópole. É só a partir da metade do século XVIII, que se pode começar a falar em uma literatura nacional como eixo de nossa cultura, e não mais como produções individuais reflexos da cultura européia.
Candido (2004) confirma isso, citando que a nossa literatura se inicia como uma continuação da literatura européia e somente a partir, de 1822, com a nossa independência, e com o movimento romântico é que o Brasil passa a adotar uma teoria nacionalista incomodada com tal fato, tentando minimizá-lo. Procura-se, neste momento, exaltar o que teríamos de original, de diferente, “como se quisesse descobrir um estado ideal de começo absoluto”. Tal atitude, nada mais é, que uma forma de afirmação política, que exprime o desejo de uma nação em formação de descobrir sua identidade, afirmando-a ao mundo e sendo reconhecida por ele.
É importante lembrar, que como diz Gumbrecht (1999), tanto os novos quanto os antigos empregos do conceito de identidade sempre estão motivados ou por nostalgia ou por ressentimento. Em nosso caso, podemos dizer que por ambos: nostalgia de um passado glorioso, talvez nunca existente, e ressentimento pela destruição desse passado pelo processo de colonização. Essa soma gerou uma busca por uma identidade verdadeiramente brasileira, que retomasse nosso passado e nos impulsionasse ao futuro como uma nação grande, valorizada pelo mundo.
Hall (1999) confirma o que aqui foi dito, explicando que o discurso da cultura nacional se vê entre o desejo de retornar a glórias passadas e o impulso de avançar em direção ao futuro. Ele vê a cultura nacional como uma “comunidade imaginada”, formada pela união das memórias do passado, com o desejo por viver em conjunto e a perpetuação da herança. Uma cultura nacional busca unificar todos os seus membros numa mesma identidade nacional, representando-os como pertencentes a uma grande família nacional.
Com a independência, desenvolveu-se a idéia de que a nossa literatura deveria ser diferente da portuguesa, pois “um país independente possui uma literatura independente” (Candido, 2004). Portanto, é a partir do romantismo que o nosso comportamento literário passa a ser caracterizado como nosso, como brasileiro. A idéia de Brasil visto como nação, com uma cultura e identidade própria só é concebida a partir daí. Entretanto, é ainda uma idéia ingênua de nação, vista como pura e intocável.
Este foi um momento de intensa participação ideológica da literatura, sendo nossos escritores importantes participantes desses acontecimentos. A literatura adquiriu uma nova face, voltada para esse projeto de construção de nação. A poesia se tornou patriótica, e vários foram os ensaios políticos e os sermões nacionalistas produzidos pelos intelectuais desse tempo.
No romantismo, há uma predominância de um trabalho regionalista, com valorização do que é nosso em detrimento do que não é. Havia um esforço para ser diferente, buscava-se a afirmação de nossas peculiaridades. Nossa identidade cultural estaria marcada pelas nossas diferenças. O objetivo era “criar uma expressão nova e, se possível única, para manifestar a singularidade do país e do eu” (Candido, 2004).
Essa busca pelo que é original do Brasil acabou por levar os escritores a encontrar o que queriam na figura do índio, que seria o verdadeiro brasileiro. O caráter legítimo do texto estaria na definição de um caráter brasileiro, que por sua vez, se encontraria no tema indígena. O nativismo passou a ser, portanto, o principal tema das obras literárias deste tempo. Entretanto, é ainda, um nativismo pitoresco, de conotação francamente patriótica, derivado de nossas origens coloniais. .
Candido (2004) afirma que, na verdade, por ocasião da Independência eles (os índios) já estavam instalados no papel de elemento simbólico da pátria, prontos para o retoque decisivo que os românticos lhe dariam, assimilando-os ao cavaleiro medieval, embelezando seus costumes, emprestando-lhes comportamento requintado e suprema nobreza de sentimentos.
“O indianismo foi um fenômeno de adolescência nacionalista brasileira” (Candido, 2004). Entretanto, foi importante histórica e psicologicamente, por dar ao brasileiro a ilusão de ter um antepassado fundador glorioso, digno e honrado. Idealizado pelos românticos, o índio satisfez a necessidade de um país jovem e mestiço de tornar sua origem algo que possa dignificá-lo.
De um outro lado, o Romantismo vem revelar um novo país através do romance regionalista, que vinha descrevendo lugares e modos de vida diversos desse país de tão grandes proporções. O regionalismo estava aplicado em descrever o interior de nosso país, seus costumes, seu povo, tudo o que o diferenciava dos padrões urbanos. Descreveu extensivamente nosso país, revelando um Brasil até então desconhecido por muitos brasileiros. Isso foi de fundamental importância, principalmente pelo fato de mostrar todas as diferenças como sendo nossas, tudo e todos faziam parte de um mesmo país, e dessa forma, a concepção de nação se ampliava a um maior número de brasileiros.
Um outro fator de valorização de nossa identidade se encontra na valorização de nossa língua. Portella (1986) cita que é imprescindível ver a literatura brasileira como a expressão de uma vivência brasileira. E para expressar algo brasileiro vivido pelos brasileiros é necessário um instrumento próprio, que nada mais é que a linguagem, vista como base de um estilo nacional. Porque, para ele, a linguagem é meio de apreensão e de expressão da realidade. Portanto, uma literatura brasileira deveria utilizar uma linguagem brasileira – idéia que vai ser retomada posteriormente com o movimento modernista.
Apesar de conhecer muito bem a língua portuguesa e escrever com perfeita correção com relação à gramática normativa, os escritores românticos procuraram flexibilizar o uso da língua, procurando não só tonalidades diferentes para descrever a nossa natureza e a nossa sociedade, mas também buscando uma língua que se identificasse com a nossa nação, uma língua que pudesse manifestar nossa identidade cultural.
Prosseguindo na herança deixada pelo Romantismo, o Modernismo, já no século XX vem promover novamente uma reavaliação da cultura brasileira. Segundo Candido (2004), ambos os movimentos não foram apenas movimentos literários, mas também movimentos culturais e sociais de âmbito bastante largo. Um se inicia juntamente com o nosso processo de independência. O outro surge por volta de cem anos depois e juntamente, com o centenário da Independência, vem uma revisão do Brasil por si mesmo, buscando novas perspectivas em uma sociedade em constante transformação.
Assim como outros movimentos, o Modernismo surge influenciado por movimentos europeus. Entretanto, é uma influência que se modifica ao chegar aqui e gera algo que é nosso, próprio de nossa cultura. Foi um movimento complexo e em alguns pontos, contraditório, mas foi o movimento com maior capacidade transformadora já visto no Brasil. Considerado inicialmente como excêntrico pela crítica nacional aos poucos foi assumindo uma posição mais madura e se tornando mais produtivo. Tudo o que era produzido, se baseava em um saber seguro, consciente, fruto de pesquisas e da grande capacidade de reflexão.
Acima de tudo, os artistas modernistas defendiam a liberdade de criação e, principalmente, de experimentação, o direito de não seguir padrões, regras. Pregava a não mecanização da arte. Assim como os românticos, recorreram ao primitivismo, entretanto, não se utilizaram mais daquele índio civilizado, cavalheiro. Os modernistas, como friza Candido (2004), procuraram no índio e no negro, agora sim retomado como elemento fundamental na formação de nossa cultura, o primitivismo que foi capaz de quebrar as convenções da metrópole, de tornar a cultura dominante em nossa cultura.
A obra modernista visava ser um retrato satírico de nosso povo, nossa cultura. Pretendia elevar nossa realidade local, assimilando destrutivamente a cultura européia e recriando-a a nossa maneira. Os modernistas olhavam a realidade de maneira mais crítica, denunciavam o modo até então vigente de mostrar o país como extensão do modo de vida das elites tradicionais. Estes artistas perceberam que o Brasil não era mais o mesmo e procuraram mostrar esse Brasil, com negros, índios, mestiços, imigrantes, proletários e campesinos, ricos e pobres.
Novamente retomaram a questão da língua, já pensada pelos românticos. Segundo Candido (2004), os modernistas valorizavam temas do cotidiano, quebravam a hierarquia dos vocábulos, adotando expressões coloquiais mais singelas, algumas até mesmo vulgares. Combatiam a mania gramatical e pregavam o uso de uma língua, segundo as características diferenciais do Brasil, incorporando o vocabulário e a sintaxe irregular de um país onde as raças e as culturas misturam. Ou seja, os modernistas levaram ao extremo aquilo que o romantismo pregava ainda de maneira modesta. Legitimadas pelo uso brasileiro, as formas incorretas tornam-se corretas.
Somos sim uma cultura que é um prolongamento da cultura européia. Isso não podemos e não devemos negar. Mas, como frisa Portella (1986), uma cultura de prolongamento com matizes de tal modo múltiplos e nítidos, que terminaram por lhe atribuir uma fisionomia própria. Nossa sociedade não se desenvolveu através da continuidade das culturas locais, que ao contrário, foram dizimadas. Ela se formou através da transposição da cultura da metrópole, adaptada a essa nova realidade - nossa realidade. Desde cedo, foi uma sociedade construída em cima de contrastes entre o primitivo e o avançado.
Candido (2004) diz que nossa literatura é uma literatura que se derivou de uma outra, assim como nossa cultura, mas que colocou algo de próprio nela, tomando-a para si na mesma proporção em que a colônia ia se transformando em nação, desenvolvendo sua identidade. Nossa literatura não nasceu aqui: veio pronta de fora para transformar-se à medida que se formava uma sociedade nova, uma sociedade brasileira mais identificada com si mesma.
Segundo Portella (1986), cultura é realidade. Não é sonho ou abstração: é fenômeno vivido, antes de mentalizado. O produto estrangeiro, para ter alguma utilidade, deve ser integrado, como que nacionalizado. A prática revolucionária é ato de cultura. Revolucionar é romper com o estabelecido. É repelir em nosso passado tudo o que significou submissão.
Romantismo e Modernismo foram capazes de perceber esses conceitos e ambos os movimentos, de acordo com seu contexto histórico, procuraram colocar esses conceitos em prática. O Modernismo, com certeza, foi um movimento muito mais profundo, crítico e consciente de seu papel que o Romantismo, mas foi este o movimento que deu o passo inicial na construção de uma identidade cultural brasileira. Foi um movimento de certa forma inocente, mas que ocorreu num Brasil ainda inocente de seu papel no mundo, de seu conceito de nação. Já o Modernismo vem a ocorrer num período de maior consciência artística nacional, o caminho já havia se iniciado e prosseguido com o Realismo, o Naturalismo, e outros movimentos literários que serviram para assentar tudo que já havia sido proposto pelo Romantismo e abrir caminhos para as novas idéias que viriam com o Modernismo.
Como diz Portella (1986), a realidade fenomenal brasileira é muito mais rica e forte do que a consignada em nossa literatura. Por isso, muitos aspectos de nossa vida e de nossa alma como brasileiros ainda não foram captados pelos nossos escritores. Cabe à presente e às futuras gerações captarem esses elementos ainda excluídos de nossa literatura, tendo cada vez mais consciência do papel da obra literária na construção da identidade cultural de um país.
v Referências Bibliográficas:
CANDIDO, Antonio. Iniciação à Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2004.
HALL, Stuart. As culturas nacionais como comunidades imaginadas. In: A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, DPA, 1999.
PORTELLA, Eduardo. Literatura e Realidade Nacional. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1986.
ORTIZ, Renato. Da Raça à cultura: a mestiçagem e o nacional. In: Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985.
A LUTA POR UMA NOVA GLOBALIZAÇÃO
A minha análise, vai ser baseada na entrevista concedida pelo professor Milton Santos – um dos raros pensadores brasileiros cujas reflexões e produção teórica repercutiram não só além das fronteiras de seu país, como também além do âmbito de sua comunidade profissional, um intelectual comprometido com os grandes problemas e questões de seu tempo, sobretudo com aquelas parcelas da população marginalizadas pelo perverso processo de globalização ora em curso. Deixou sua marca de indignação e revolta por todos os meios e instrumentos nos quais teve a oportunidade de manifestar suas idéias, fossem eles textos acadêmicos, aulas na universidade, artigos de jornais ou entrevistas nos programas de televisão – à TV Cultura no ano de 1997. Quem quiser saber um pouco mais sobre esse intelectual deixo o primeiro vídeo da entrevista:
http://www.youtube.com/
E para quem quiser ler toda a entrevista deixo o site na qual ela foi transcrita:
http://historiografia.
A LUTA POR UMA NOVA GLOBALIZAÇÃO
Na entrevista de Milton Santos podemos perceber como ele destaca o papel da mídia nesse processo de globalização, ressaltando como os meios de comunicação estão voltados para o consumo material, mostrando como o mundo é comandado pelas grandes corporações e interesses internacionais. No entanto, ele procura mostrar que a informação, manejada pelo globalitarismo – o autor usa a expressão globalitarismo para expressar o totalitarismo que as nações hegemônicas impõem nas periféricas, seja no âmbito econômico, social ou cultural – pode ser utilizada de uma forma que leve a uma melhor solidariedade, trazendo uma nova interpretação. Tentando mostrar que os padrões da sociedade são outros, e não se direcionando somente para uma pequena parcela da população.
Santos salienta que o socialismo, praticamente não existe, pois o que restou dele já foi incorporado no sistema atual de globalização. Tendo ainda regiões isoladas, mas que se inseridas a globalização vão acabar com práticas capitalistas, como foi o caso da China.
Para ele, a sociedade hodierna tem se mostrado mais combativa com o modelo de desigualdade imposto pelos países hegemônicos. Tem-se uma realidade de dependência muito grande e que esse modelo de globalização acaba por tornar os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.
No Brasil, ele repudia a forma como o país está aceitando o que ele chama de globalização perversa (globalitarismo), e não buscando uma forma própria de entrar nesse processo de globalização, que seja menos desigual para a população. Ele chama a necessidade de um projeto nacional no caso brasileiro, para que o país não seja engolido por um processo econômico que deixe a situação social mais desigual.
Para ele, uma mudança na situação atual virá a partir do momento que os excluídos tomarem consciência da situação que eles estão, e saírem da posição de “conformismo”. Desta forma, pressionando o sistema para conseguir serem inseridos de uma maneira mais humana.
Essa nova globalização só não ocorre, segundo ele, porque os intelectuais não se colocam como pensadores dos seus países, mas sim com um pensamento que vai de acordo com o pensamento dominante (Estados Unidos e Europa). Ele afirma que é necessário produzirmos novos conhecimentos, para assim buscarmos outro tipo de globalização.
Aluno: Gabriel Vitiello